Vivemos sob o império da notificação. O nosso bem mais precioso deixou de ser o tempo e passou a ser a nossa capacidade de atenção — algo que dilapidamos voluntariamente entre uma aba aberta no navegador, um áudio de três minutos que poderia ser um resumo de uma linha e a promessa silenciosa de que, depois, a gente resolve.
Na semana passada, peguei-me preso em uma dessas engrenagens modernas. Era uma terça-feira comum, daquelas em que a lista de pendências brota na tela do computador como cogumelos depois da chuva. Mensagens no WhatsApp piscando em vermelho, e-mails com “Urgente” em caixa alta (o que, traduzido para o português corporativo, significa apenas “eu esqueci de fazer antes”), prazos estourando e a sensação constante de estar enxugando gelo com uma peneira.
No meio desse turbilhão, encontrei por acaso na rua um velho amigo de longa data. Sabe aquela figura com quem você compartilha memórias e gargalhadas de épocas em que a vida era medida em carnês de prestações e fins de semana no clube? Pois bem. Paramos na calçada. O abraço foi genuíno, daqueles que apertam a alma e desmontam a pressa.
— Rapaz, quanto tempo! A gente precisa marcar um café sem pressa pra colocar o papo em dia! — disse ele, com aquele entusiasmo típico de quem realmente quer ver o outro bem.
— Com certeza absoluta! Deixa só passar essa semana maluca que eu te ligo e a gente fecha a data! — respondi, sorrindo e já olhando discretamente para a tela do celular que vibrava no bolso da calça.
Ele sorriu de volta, acenou e cada um seguiu para o seu lado da avenida.
Foi só dar três passos que a ficha caiu, pesada como uma bigorna. Quantas vezes por ano eu repito essa mesma frase? “Depois a gente marca.” Quantas vidas a gente vai empurrando com a barriga, guardando as pessoas na prateleira dos afetos adiados, como se tivéssemos um estoque infinito de terças-feiras disponíveis?
A modernidade nos vendeu a ilusão de que estamos hiperconectados, mas a verdade é que estamos apenas hiperocupados em não fazer nada que realmente importe. Criamos uma agenda tão cheia de compromissos vazios que já não cabe nela um café prolongado, uma conversa fiada sem relógio na parede ou o luxo de simplesmente ouvir o outro sem calcular mentalmente quantos minutos restam antes do próximo compromisso.
Cheguei em casa, abri a porta, joguei a pasta no sofá e encarei o celular sobre a mesa. A lista de pendências continuava lá, intacta, cobrando a sua fatura.
Não liguei para o meu amigo naquele dia, confesso. Mas, pela primeira vez em muito tempo, decidi ignorar a próxima notificação que apitou na tela. Olhei pela janela da sala e vi o entardecer pintando o céu de dourado — um espetáculo gratuito que o “eu de ontem” certamente teria perdido por estar ocupado demais respondendo mensagens.
Fechei a janela, respirei fundo e fiz uma promessa silenciosa: no próximo encontro na calçada, o café não vai ficar para depois. Porque a única certeza que a gente tem sobre o tempo é que ele, ao contrário dos nossos boletos, nunca espera o vencimento para passar.





