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Cultura em Destaque

É com imenso prazer que trago nesta edição uma conversa exclusiva e inspiradora para o nosso espaço. Tive a honra de entrevistar a Secretária de Estado de Cultura, Marília Marton, uma gestão que vem transformando o cenário cultural paulista com sensibilidade, dinamismo e projetos de grande impacto para a nossa sociedade.
​Agradeço imensamente à Secretária Marília Marton pela disponibilidade, pela recepção carinhosa e pelo diálogo aberto. É um privilégio, como colunista social, poder registrar e compartilhar com vocês o trabalho de quem faz a diferença pela nossa arte e identidade.

Ver reunidas no palco de Olímpia as expressões culturais de todos os estados do Brasil demonstra uma riqueza imensa. Na sua visão, qual é o papel real do folclore na construção e na preservação da identidade do brasileiro hoje, em plena era digital?

É emocionante ver esse mosaico no palco de Olímpia, porque o folclore não é apenas uma lembrança guardada no passado; ele é uma linguagem viva que continua contando quem nós somos. Em plena era digital, quando tudo é muito rápido e consumimos conteúdos do mundo inteiro em segundos, a tradição ganha ainda mais importância. É ela que nos dá raiz, pertencimento e identidade. O nosso desafio no governo não é isolar o folclore da internet, mas fazer da tecnologia uma aliada. Quando um jovem pega o celular, grava uma congada ou divulga uma festa de boi nas redes, ele está ajudando a manter essa cultura viva.

O Festival do Folclore de Olímpia é um verdadeiro mosaico do Brasil profundo. Como a Secretaria de Estado da Cultura trabalha para garantir que essa multiplicidade de saberes tradicionais não fique restrita aos grandes eventos, mas dialogue o ano todo com as políticas públicas do Estado?

Essa é a chave da nossa gestão. O festival em Olímpia é lindo, mas essa riqueza não pode aparecer só durante alguns dias no ano. Ela precisa estar presente o ano inteiro nas escolas, nos equipamentos culturais, nos editais e na vida das comunidades que mantêm essas tradições. Para isso, trabalhamos com uma política permanente de valorização de todas as expressões artísticas e do patrimônio imaterial. O ProAC é o nosso principal programa de fomento e abrange desde as grandes linguagens — como teatro, música, dança e artes visuais — até linhas específicas para manifestações indígenas, quilombolas, caiçaras e da cultura popular. O grande legado que queremos deixar neste Governo é a descentralização real desses recursos em todo o Estado. Quando a cultura encontra espaço contínuo no orçamento público, ela deixa de ser apenas memória e vira força ativa de desenvolvimento.

Sabemos que existem dinâmicas próprias entre fazer cultura nas metrópoles e no interior paulista. Quais têm sido os maiores desafios práticos para manter viva a cultura tradicional em meio a tantas transformações contemporâneas?

São Paulo é um estado gigante e diverso, e os desafios mudam em cada território. Nas metrópoles, a luta muitas vezes é garantir espaço e visibilidade diante de uma oferta cultural muito intensa. No interior e nos municípios menores, o grande desafio é a continuidade: formar novas gerações e manter os grupos ativos. A cultura tradicional não se preserva apenas com eventos pontuais. É preciso ter gente, espaço de ensaio, transmissão de saberes e sustentabilidade para a economia criativa local. O nosso papel na Secretaria é trabalhar na descentralização dos investimentos e dar suporte técnico e financeiro para que o passado continue fazendo sentido no presente das pessoas, tendo condições reais de chegar ao futuro.

Muitos mestres e grupos tradicionais lutam para passar o bastão para as novas gerações. Como o Estado pode apoiar de forma mais efetiva a transmissão desses saberes para que a essência e o objetivo original das tradições não se percam?

Essa é uma das questões mais prioritárias da nossa política cultural. Quando um mestre ou uma mestra deixa de ensinar, não estamos perdendo apenas um show ou uma técnica; estamos perdendo memória, história e pertencimento. O Estado precisa criar condições objetivas para que esses conhecimentos sejam compartilhados entre gerações. Isso passa por lançar editais específicos para municípios menores, fomentar ações de formação, aproximação com as escolas e equipamentos culturais regionais, além do registro do patrimônio imaterial. Preservar não é congelar o passado numa vitrine, é dar condições para que ele continue vivo e pulsando com as novas gerações.

Quando falamos de preservação, o recurso financeiro é sempre o ponto nevrálgico. De que maneira a Secretaria tem buscado aprimorar os editais e mecanismos de fomento para que o dinheiro chegue com agilidade e justiça a quem realmente faz a cultura raiz acontecer na ponta?

Eu costumo repetir um lema dentro da Secretaria: o recurso público precisa chegar a quem faz a cultura acontecer no território, com menos burocracia, mais agilidade e mais justiça. Quem faz cultura raiz muitas vezes mantém a tradição com um esforço comunitário e pessoal enorme. Por isso, simplificamos processos, aumentamos a transparência e desburocratizamos os editais. Não basta lançar um edital; é preciso garantir que as pessoas consigam acessá-lo. Investimos em orientação técnica, divulgação regionalizada e escuta ativa para que o fomento alcance a festa popular, a roda, o canto, a culinária e o artesanato — e não fique restrito apenas a quem já domina a linguagem técnica dos projetos públicos.

Estando aqui na Capital Nacional do Folclore e conversando diretamente com gestores e produtores da região, quais são as grandes novidades, editais ou diretrizes que a Secretaria preparou para beneficiar os municípios paulistas no próximo ciclo cultural?

Anunciamos o investimento de R$ 90 milhões em editais do Fomento CultSP. Esses recursos atendem desde audiovisual e games até arquitetura, economia criativa (moda e design), festivais, eventos regionais e um apoio direcionado a municípios com até 50 mil habitantes. Incluímos também o fomento às salas de cinema de rua e itinerantes, tudo construído após escuta direta dos setores. Além disso, consolidamos uma marca forte do nosso Governo: 60% de todos os recursos dos editais lançados são destinados obrigatoriamente para o interior do Estado. Isso fortalece programas históricos como o ProAC SP, que já completou 20 anos e é o principal programa de fomento do país, tendo apoiado mais de 30 mil projetos ao longo de sua trajetória.

Como a pasta enxerga o potencial turístico e econômico associado às festas populares e tradicionais? Há novos projetos em vista para fortalecer o turismo cultural integrado nas diferentes regiões do Estado?

As festas populares e tradicionais são uma riqueza cultural inestimável, mas também são um motor econômico poderoso. Enxergamos o turismo cultural como um instrumento estratégico de desenvolvimento, especialmente para o interior e o litoral, porque ele distribui renda de forma direta, movimenta o comércio e valoriza o que o território tem de mais autêntico. Trabalhamos essa integração por meio de ações estruturadas como o Revelando SP e as Rotas Culturais Gastronômicas. Queremos avançar ainda mais, expandindo rotas regionais que conectem patrimônio histórico, festas tradicionais e a culinária paulista. Integrar cultura, turismo e economia criativa é prioridade para transformar nossa diversidade em desenvolvimento sustentável.

8. Ao longo da sua trajetória no poder público — passando pela Prefeitura de São Paulo, Educação e agora liderando a Cultura do Estado —, qual foi o aprendizado mais marcante sobre a alma do povo paulista e brasileiro que guia as suas decisões hoje?

Se eu pudesse resumir o maior aprendizado da minha trajetória em uma frase, diria que: a cultura não está contida apenas nos grandes equipamentos ou nos grandes eventos; ela mora nas pessoas. O povo paulista e brasileiro tem uma capacidade extraordinária de criar, trabalhar, acolher e proteger suas raízes, mesmo diante de todas as dificuldades.

Para encerrar, Secretária: o que a cultura brasileira representa de mais profundo para a senhora, e que mensagem a senhora deixa para todos os fazedores de cultura, artistas e guardiões da tradição?

Para mim, a cultura brasileira representa a nossa capacidade mais profunda de transformar dor em beleza, dificuldade em criação e diversidade em encontro. Ela nos conecta aos nossos ancestrais, ao nosso território e uns aos outros. A todos os fazedores de cultura, artistas, mestres, mestras e guardiões da tradição, deixo uma mensagem de gratidão e esperança. Vocês não são apenas produtores de arte; são os responsáveis por manter aceso o coração do Brasil. Cada ensaio, cada apresentação e cada ensinamento passado a uma criança é um ato de amor, de pertencimento e de construção do futuro.

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