O dia 28 de junho é uma data marcada no calendário não apenas para celebrações, mas como um lembrete visceral de que a luta pela existência ainda é o nosso cotidiano. Comemoramos a vida, o respeito e a nossa história, mas não podemos – nem queremos – mascarar a realidade com festejos enquanto o sangue de pessoas LGBTQIA+ ainda escorre pelas ruas do Brasil.
O Brasil ostenta, ano após ano, o triste e vergonhoso título de país que mais mata travestis, transexuais e homossexuais no mundo. Não são apenas números em um relatório de direitos humanos; são vidas interrompidas, sonhos ceifados e famílias desestruturadas pelo ódio e pela intolerância. Estamos falando de brasileiros e brasileiras cujo único “crime” foi serem quem são, amarem quem amam e ocuparem espaços com a autenticidade que lhes é de direito.
Aos políticos, autoridades e a toda a sociedade: o convite ao diálogo é também uma exigência de ação.
O século 21 não é o tempo da conivência. A política que ignora a violência contra a população LGBTQIA+ é uma política que falha na sua missão mais básica: a proteção da vida. Não estamos pedindo favores; estamos exigindo o cumprimento do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana.
Muitos tentam se esconder atrás de cortinas de fumaça, dizendo que “cada um tem sua opinião”. Mas deixemos claro: respeito não é uma questão de opinião; é a base fundamental da nossa convivência em sociedade.

Não estamos pedindo favores. Seja você uma autoridade pública, um empresário, um vizinho ou qualquer cidadão: a ética e a humanidade exigem respeito absoluto. Você não precisa concordar com a nossa orientação sexual, você não precisa compreender a nossa identidade de gênero, e você não é obrigado a compartilhar da nossa vivência. Mas você é, sim, obrigado pelo pacto social de respeito à vida a conviver em um ambiente onde a integridade física e moral de cada pessoa seja inviolável.
Além disso, precisamos falar sobre o incômodo que o nosso sucesso provoca. É inegável que, para uma parcela — felizmente não a totalidade, mas uma parcela expressiva — de pessoas em evidência e até de políticos, a nossa ascensão é vista como uma ameaça. Quando um homossexual se destaca, brilha em sua profissão ou conquista um espaço de liderança, há quem se sinta incomodado, movido por uma inveja mesquinha que tenta, a todo custo, derrubar o que estamos construindo. Parece que existe uma regra implícita, ditada pelo preconceito, de que nós nunca deveríamos estar à frente ou acima daqueles que se sentem donos do poder. Essa tentativa de nos silenciar ou de sabotar o nosso progresso só revela a insegurança e o medo de quem não consegue lidar com a meritocracia quando ela não favorece apenas o padrão tradicional.
Precisamos de leis que punam o preconceito com o rigor necessário. Precisamos de políticas públicas que incluam a população trans no mercado de trabalho, na educação e na saúde, tirando-a da margem da sobrevivência e colocando-a no centro da cidadania. O preconceito não é apenas um sentimento ruim que alguém carrega; ele é uma força destrutiva que gera violência real, exclusão social e morte.
A política precisa ser o espelho da sociedade, e a nossa sociedade é plural, diversa e vibrante. Autoridades que se dizem compreensíveis com a dor humana precisam demonstrar isso na prática, votando projetos, destinando verbas e combatendo a impunidade. O silêncio das autoridades — e a omissão de cada cidadão — diante dos crimes de ódio é um sinal verde para que a barbárie continue.
Neste 28 de junho, reafirmamos: nós existimos, nós resistimos e nós não vamos retroceder. Não somos um “problema” a ser debatido, somos seres humanos com os mesmos deveres e, portanto, com os mesmos direitos inalienáveis que qualquer outra pessoa.
O orgulho que celebramos hoje é, acima de tudo, uma resistência contra o apagamento. Estamos aqui para dizer que o Brasil só será, de fato, uma grande nação quando o respeito for a regra, e não a exceção.
Respeito é o mínimo. A igualdade é o nosso destino.

Por fim, não posso deixar de celebrar a grandiosidade da nossa luta nas ruas. Parabenizo a organização da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, em São Paulo, na icônica Avenida Paulista. Foi um espetáculo de visibilidade e resistência, movido pelo tema oficial deste ano: “A rua convoca, a urna confirma”. Que orgulho ver esse palco vibrar com nomes como Pabllo Vittar, Gloria Groove e tantos outros artistas talentosos que, com sua arte, reforçaram que o nosso brilho é inabalável. A parada foi linda, potente e necessária.





